Estou de volta!
Queria dizer-vos que passei um dos melhores momentos da minha vida em Moçambique. Foi a realização dum sonho há muito esperado que se concretizou da melhor forma. Vivi uma experiência única que jamais se apagará da minha memória.
Em Moçambique, nomeadamente em Etatara, encontrei um povo bom que estava de braços abertos para nos acolher. A sinceridade dos seus actos para connosco dificilmente nos deixava de emocionar. Passei momentos inesquecíveis. Por exemplo como muitas crianças em Etatara nunca tinham visto um “branco” lembro-me de chegar e de olharem para nós como se fossemos autênticos extra-terrestres. No início tinham medo de nós, de se aproximar e comunicar. Mas logo tiveram vontade de partilhar connosco o pouco que tinham. Recordo-me das canas-de-açúcar que nos iam entregar em casa, não esquecendo que uma cana para eles significava muitíssimo (os rebuçados e os doces que não têm). Porém, ao invés de ficarem com ela preferiam oferecê-la como sinal de estarem felizes com a nossa presença.
A população vive numa pobreza extrema. A única actividade económica é a agricultura. As pessoas comem apenas uma vez por dia. As crianças apresentam sinais claros de subnutrição. Não sabem o que é uma cama, dormem no chão; todas vivem em palhotas; talheres nunca viram; a maior parte não tem calçado e vi crianças com a mesma roupa vestida desde o primeiro dia que lá cheguei até ao dia da minha partida. Não há água canalizada nem luz. Mas posso dizer que o maior problema de todos é a água. A população tem de ir buscar água ao rio Lúrio, que fica relativamente afastado. Na mesma água do rio lavam a roupa e tomam banho, para além de a utilizarem para consumo.
Independentemente de tudo isto, posso dizer-vos que nunca ouvi ninguém se queixar de que está farto de viver, ao contrário, é um povo que encontra mil e um motivos para celebrar a vida. Algo que achei extraordinário foi o facto de nas noites de lua cheia a população se reunir a dançar a noite inteira, isto porque como é lua cheia, a aldeia está muito mais iluminada do que é costume (o sol põe-se habitualmente às 17 horas e a escuridão é extrema).
As missas contagiam qualquer pessoa. Três horas passam tão rapidamente que quando chega ao fim a celebração temos vontade de pedir para ali ficarmos e com eles continuar a louvar a Deus de forma tão singular.

Deus revela-se em cada sorriso e em cada olhar. A expressão das crianças é tão divina que muitas vezes dei comigo a pensar como é que alguém ainda pode duvidar da existência de Deus. Ele torna-se tão visível que posso dizer que houve momentos em Moçambique que senti Deus tão perto de mim como nunca.
Visível no outro que pouco tem, mas que afinal, acaba por ter tudo: vontade de viver alcançando a verdadeira felicidade.
24/09/04

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